sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Teologia: Uma Leitura Antropológica

O termo teologia origina-se do pensamento grego. O vocábulo é formado por dois substantivos, theós (qeo,j) e lógos (lo´´,goj), e significa um “discurso sobre Deus”. Os primeiros teólogos entre os gregos foram os poetas, especialmente àqueles que, como Hesíodo em sua Teogonia, discursaram em verso e prosa a respeito da criação do mundo (mito cosmogônico) e da gênese dos deuses gregos (mito teológico). Essa remota origem da palavra esclarece algumas questões epistemológicas a respeito do saber teológico entre os gregos.



Primeiro, a teologia era um discurso criativo que procurava compreender o mistério que circunda o cosmos, a vida. Segundo, a teologia era uma narração engenhosa que explicava a origem das divindades. Terceiro, a teologia era uma narração contextualizada com a cultura e a vida, que explicava o sucesso e o fracasso dos homens. Quarto, a teologia era um saber que envolvia o conhecimento, os gêneros, os artifícios da genialidade e linguagem humana. E, por último, a teologia era uma revelação mistagógica [1], que conduzia o homem para dentro do mistério, da compreensão do símbolo, da sacralidade do mundo, dando-lhe uma resposta a respeito do fim último.

Não existia, portanto, uma diferença entre teologia e antropologia: Falar dos deuses implicava em discursar sobre os homens. Cedo na história do pensamento grego, os teólogos poéticos souberam que o mundo dos deuses (theoí) era distinto do universo dos mortais (thanatoí), de tal modo que os primeiros são imortais (athánatoi) e bem-aventurados (eudaímones), enquanto os homens são efêmeros (ephémeroi) e infelizes (talaíporoi) [2].

A concepção grega de que a teo-logia é também uma anthropo-logia foi apresentado pelo teólogo Rudolf Bultmann ao afirmar que “quando se pretende falar de Deus, é preciso falar de si próprio” [3]. Por conseguinte, tanto os gregos quanto os modernos entenderam que, para saber “que é o homem”, é oportuno interrogar-se a respeito de Deus. Para teologizar a respeito do homem e de Deus, o totalmente Outro, Bultmann se fundamentará na antropologia heideggeriana. Contudo, falar de Deus possui certos limites que entre outros inclui a própria limitação humana. De acordo com ele

Falar de Deus como o totalmente diferente faz sentido quando constatei que a verdadeira situação do homem é a do pecador, que quer falar de Deus e não é capaz disso; que quer falar de sua existência e também não é capaz. Teria que falar dela como a que é determinada por Deus, e tem condições de falar dela como tal apenas como de uma pecaminosa, ou seja, como de uma existência em que ele não é capaz de ver Deus, diante da qual Deus se situa como o totalmente diferente [4].

O conceito que se tem de Deus reflete na explicação que se dá a respeito do homem. Heidegger entendia que o mundo é uma conexão de coisas finitas criadas por Deus e somente a partir do conceito de Deus é possível discutir e deduzir o que pertence ao ente na medida em que ele é criação divina [5]. A origem do homem está em Deus e o sentido da existência e da natureza real do ser humano encontra-se respectivamente nele. Neste aspecto, tanto o teólogo quanto o especialista em qualquer ciência que tem o homem como objeto deve considerar, como afirmou Andrés Queiruga, que “pelo esquecimento de Deus, a própria criatura torna-se obscura”.6

O estudo da teo-logia conduz o teólogo necessariamente à pesquisa da antropologia-teológica, e vice-versa. Esse movimento dialético somente é possível mediante a auto-revelação de um Deus pessoal e de uma resposta-decisão da parte do homem, e se completa no desprendimento encarnacional de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Como afirma García Rubio

À diferença das religiões em geral, a Boa Nova cristã proclama: não é o homem quem encontra a Deus mediante práticas religiosas, mediante o esforço ascético ou qualquer outro tipo de “obras”, mas é Deus quem assume a nossa existência, a nossa linguagem e a nossa história...O texto de 2Co 8,9 ressalta, com muita simplicidade, este dinamismo do desprendimento-encarnação (Jesus Cristo, muito rico, se fez pobre voluntariamente)-serviço (para enriquecer-nos com sua pobreza) [7].

A teologia cristã entende, por conseguinte, que somente é possível falar (lógos) sobre Deus (theós) a partir da revelação que Ele próprio faz de si mesmo e de suas obras ao homem. É Deus quem se revela e se comunica com o homem e ao se revelar torna-se em parte conhecido, em parte abscôndito. A revelação do nome de Deus a Moisés em Êx 3.13-15, por exemplo, tem elementos do mistério que circunda a manifestação que Javé faz de si mesmo.
O Deus que se mostra, afirma P. Ricouer, é um Deus escondido e a quem pertencem as coisas ocultas [8]. Deus se revela por meio de um nome inominável! Se na cultura judaica primitiva conhecer o nome de um personagem tornava-o disponível ao talante do conhecedor; a revelação do Nome a Moisés demonstrava que o Senhor não estaria à mercê da linguagem e disposição de seus adoradores. “Eu Sou” (Ehyéh asher ehyéh) não é um nome que desvela sua natureza e essência incomunicável, mas que o coloca como o Deus da Redenção do passado, do presente e do futuro. O que Ele é está oculto na essência do que o Nome significa. Há, portanto, um segredo e uma comunicação, um mistério e um desvelamento.

Notas
1. O termo mistagogia procede do grego “mist”, que significa “mistério” e “agogia”, “guiar,conduzir”. Mistagogia é conduzir o indivíduo para dentro do mistério.
2.VAZ, Henrique C.L. Antropologia filosófica I. São Paulo: Edições Loyola, 1991, p.28.
3. Grifo do próprio autor. Ver BULTMANN, Rudolf. Crer e compreender: artigos selecionados. Rio Grande do Sul: Editora Sinodal, 1987, p.50. É óbvio que o presente conceito não se deve exclusivamente a Bultmann, mas o citamos como exemplo da teologia protestante.
4. Id. Ibid. p.52
5. HEIDEGGER, Martin. Introdução à filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 264.
6. QUEIRUGA, Andrés T. O Vaticano II e a teologia, in Alberto melloni; Christoph Théobald (orgs.) Vaticano II: um futuro esquecido? CONCILIUM, 312-2005/4, Rio de Jneiro: Vozes, p. 24.
7.RUBIO, Alfonso G. Unidade na pluralidade: o ser humano à luz da fé da reflexão cristãs. 4.ed., São Paulo: Paulus, 2011, p.19.
8. RICOEUR, Paul. Escritos e Conferências 2: hermenêutica. São Paulo: Edições Loyola, 2011, p.168.

Fonte: http://teologiaegraca.blogspot.com.br/2012/09/teologia-uma-leitura-antropologica.html

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