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sábado, 29 de setembro de 2012

HOMILÉTICA [a arte de preparar e pregar sermões]

DEFINIÇÃO DO TERMO

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Eu e meu pavor de falar em público



 Assista vídeos de Homilética
 Se tem uma coisa que eu sempre me assemelhei, e muito, com os caras que apanhavam na escola nos filmes adolescentes da década de 90, era o fato de que eu também era muito tímido e tinha muita dificuldade para falar em público. Não era uma “simples” dificuldade. Eu não gaguejava e ficava vermelho. Era uma dificuldade proporcional ao de um Abóbora Macho Radioativa nascer de uma semente de Melancia Roxa da Patagônia plantada em terras de Netuno. Acho que daí veio a necessidade de escrever, para poder me expressar da maneira correta quando fosse falar. Nunca deu certo, devo acrescentar.
Em qualquer lugar que eu fosse obrigado (ou tivesse opção)  a falar em público, eu travava. Podia ser na escola, em um jantar, em uma festa, em um puteiro. Onde quer que fosse, eu tinha muita dificuldade de me expressar através das palavras.
O mais incrível disso tudo é que as pessoas que possuem o poder de lhe escolher para alguma atividade onde você é posto na frente de dezenas de pessoas e precisa se humilhar ao ponto de, simplesmente falar, essas pessoas parecem ter o dom de lhe perseguir. Não importa o quanto você se encolha na cadeira, na esperança que você desapareça, não importa o quanto sua cara de “não fiz nada” esteja treinada, ela sempre escolherá você, aquele que é o mais desajeitado dentre todos que estão ao seu redor. Ela podia escolher o bagunceiro que não se importa em ser burro, o inteligente com carisma, mas não, ela quer você, um jovem mediano com cara de idiota. E esse, meus amigos, era eu (ainda tenho cara de idiota até hoje).
Em todos os anos que eu fui obrigado a estudar (ninguém estuda porque quer), em todas as salas e com todas as professoras que tive, eu era sempre o escolhido para falar em público. Não importa o tema que a aula tivesse, lá estava eu, de pé e falando algumas três palavras entre gaguejos e tropeços.
Sim, porque vocês sabem, quando alguém que não tem o dom da fala está de pé, PARADO, é quase certo que algo aconteça com seus pés e você faça o famoso “catar cavaca”, e saía andando como se não tivesse chão sob seus pés.
Uma certa vez, no auge das minhas incertezas sobre como falar em público (as sexuais já estavam resolvidas a esta altura), uma das professoras mais insuportáveis que existiam resolveu me chamar para ir no quadro responder uma pergunta.
No momento em que ela disse meu nome (e elas nunca me chamavam só de “Vanguedes”, sempre insistindo em enfiar o meu primeiro nisso) eu percebi que o mundo começava a perder as cores. Não existia som, não existia cor, não existia paladar. Não existia nem outros amigos de classe. Era como se o mundo ao meu redor desmoronasse e minha cabeça começasse a flutuar em direção ao limbo.
Eu fiquei sem saber o que responder por alguns instantes, talvez algumas horas. Tempo suficiente para que ela ficasse enfurecida e começasse a repetir meu nome como um mantra de ódio e fúria, apontando o dedo para mim e me questionando sobre minhas capacidades mentais. Posso garantir que minha pele havia ficado mais clara do que a do Penadinho.
Ela foi até mim, me balançou pelo braço e perguntou se eu estava surdo. De forma sutil, devo dizer. Levantei rápido e fui em direção ao quadro negro, com o giz em mãos e pensando nas formas que eu poderia separar a palavra “álcool”. Sim, essa era a questão que estava me fazendo perder cabelos. Ela só queria que eu separasse as sílabas de “álcool”. Era simples, visto pelos olhos que vejo hoje. Afinal, se depois daquele inferno que vivi, eu não aprendesse como se separava, eu nunca mais aprenderia.
Também devo dizer que eu não “aprendi” como se separava. A minha prima, que estudava na mesma sala, aproveitou-se de um momento oportuno em que a professora saiu de sala e gritou para mim a forma correta de separá-la.
Em todas as vezes que fui chamado para responder questões na frente da sala, eu entrava em pânico.
Na verdade, nem precisava ser na frente da sala. Se me perguntassem e eu tivesse que responder em voz alta, sem levantar da carteira nem nada, já era motivo de pânico para mim. Era impossível responder sem sentir a temperatura do meu corpo elevando-se uns 30º. Ou sem tropeçar (sentado) e cair da cadeira.
Era como se eu tivesse uma febre-fobia-desespero. Um medo irreal de falar em público enquanto uma febre louca e indomável queimava a minha testa.
Com o tempo fui aprendendo como lidar com isso, embora isso ainda me inquietasse profundamente. Houve uma época, na 7ª série, eu acho, que em uma conversa com meu professor de educação física (já que eu não fazia atividades e sim conversava) e ele me desafiou a ir à frente da turma dar uma aula sobre o que eu havia aprendido com ele previamente, sobre ramificações neuronais. Eu fui e fiz tudo direitinho. Engraçado frisar que aprendi essa aula tão bem a ponto de repetí-la por inteira ainda hoje. Isso me faz pensar se a maneira como aprendemos as coisas na escola é realmente a “mais indicada”.
Mas o Vanguedes de antes tinha medo, muito medo, de falar em público. Em outra situação, eu fui chamado na frente da sala para falar sobre reprodução sexual. Cara, se para separar “álcool” eu quase morri do coração, imaginem a minha cara quando eu teria que falar sobre “sexo” na frente de milhares de pessoas que só estavam ali com um único objetivo, te sacanear até a morte.
Neste dia eu morri. Eu só falei porque era trabalho em grupo e tinha onde me esconder. Se não fosse por isso, acho que eu estaria até hoje parado na frente da sala vazia esperando a liberação da minha professora para eu ir para casa, sem a qual eu não sairia do lugar e perderia alguns bons anos da minha vida parado lá.
Quando fui crescendo, eu fui percebendo o que me gerava esse medo irracional de falar em público. Era justamente o fato do julgamento das pessoas. Eu não me preocupava em errar ou em não ser bom, eu me preocupava em se eles me veriam errando ou se eles me achariam bom.
Nunca acharam. É bom ressaltar, né
Mas é covardia comparar o Vanguedes da 7ª série com o Vanguedes da 6ª para baixo. O Vanguedes antigo era muito tímido e tinha pavor de falar em público, fugindo infinitamente das oportunidades em que era obrigado a fazê-lo. O Vanguedes posterior aprendeu a lidar com o medo e conseguiu separar o que era obrigação com o que podia ser diversão e aprendeu que falar em público não era assim tão ruim e que algumas vezes, poucas pessoas depoistam alguma fé em você. Não é certo dar as costas para estas pessoas e simplesmente rejeitar o pedido.
Quando alguém lhe pedir para falar em público, pense nisso como um voto de confiança, não como um desafio a ser cumprido.



Era assim que eu me sentia quando falava em público


FONTE  http://vamosdevan.wordpress.com/2011/05/26/eu-e-meu-pavor-de-falar-em-publico/